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[Por mim mesma, K.]
Antes de morrer devo ainda encontrar uma possibilidade de expressar o essencial que existe dentro de mim e que nunca ainda exprimi, algo que não é nem amor, nem ódio, nem compaixão, nem desprezo, mas que é o hálito quente da própria vida, vindo de longe, que traz para a vida humana a força imensurável, assustadora, admirável, inexorável das coisas sobre-humanas. Bertrand Russel (Filósofo e Matemático inglês, 1872-1970)
Qual é a essência do Homem: a guerra? o amor? a esperança? a curiosidade? a fé? o sexo? tudo? nada?
Eu não acredito muito em concepções arbitrárias, então penso que o homem em si, e em vários momentos distintos, é constituído de vários aspectos. Sua essência talvez seja justamente a diversidade que possui... eu vejo no ser humano a guerra, o amor, a esperança, a curiosidade, a fé, o sexo...
Então acho que a resposta é TUDO.
Mais no sentido cultural, creio. Por ex.: ouvir Bach, eruditamente, mas curtir muito Pitty. Coisas assim, sabe? Falando nisso, ouve fado, ainda?
Então... eu não considero nada fora de um padrão simplesmente porque eu realmente não tenho um padrão, mesmo. Sofri algum tempo por isso, queria fazer parte de alguma espécie de fraternidade secreta de qualquer coisa que me desse identidade, hehe. Mas assim, eu ouço Bach, não é meu preferido, gosto mais de Beethoven e Dvorak, e ouço Ill Niño, sem o menor problema. Assim como gosto de MadreDeus...
Assim é muito difícil pra mim falar em padrão. Vitor Ramil x Disturbed. Yann Tiersen x Lacuna Coil. Assim com literatura, leio o Manual do Inquisidor e leio Caio Fernando Abreu. Fritjof Capra a Machado de Assis... Com cinema é a mesma coisa...
Eu tenho horror a engavetamentos, como costumo chamar. As pessoas tem esse hábito, quase reflexivo, de colocar cada coisa dentro de uma gaveta, isso pertence a isso, isso a isso e assim por diante. Pra mim as coisas são dividas em coisas que eu gosto e coisas que eu não gosto. Já foi o tempo em que eu tentava me construir de fora pra dentro...
Quanto ao fado, eu ouço MadreDeus, sou simpática ao fado em geral, mas meu conhecimento é aleatório e parco... mas sem dúvida é uma das músicas mais belas que a humanidade já gerou...
Como você imagina que esteja sua vida em 2020?
Sinceramente não faço idéia, e também não tenho planos ou metas. Mas tenho me aberto para diferentes alternativas, como "universos paralelos". Tenho pensando muito sobre a possibilidade de ser uma solteirona feliz. Nesse universo, eu seria uma pessoa encaminhada profissionalmente, mas que continua estudando, coisas diversas. Então muito provavelmente já estaria cursando uma 2ª faculdade (Letras), teria uma casa simples (talvez a mesmo em que vivo hoje), mas com um extenso bar, uma ampla sala, sem sofá e com muitas almofadas pelo chão, para receber os amigos. Continuaria com minha vida social bem ativa, com muitos amigos e conhecidos, como é hoje. Indo à vários shows, lendo muitas coisas, vendo muitos filmes...
Mas posso muito bem ser uma mulher de família que cuida da casa e dos "filhos", que ama o marido, etc.
Não tenho convicções sobre essas coisas, ou decisões, até porque a vida faz piada delas...
Você acredita em Deus?
Não. Não acredito que exista um ser consciente que determine os acontecimentos, ou mesmo que tenha criado o universo e a vida como os conhecemos. Também não acho interessante denominar quaisquer outras teorias sobre forças que regem o universo, ou alguma lógica cósmica como "Deus", acho errôneo e de mal gosto.
Suponhamos que você ganhasse uma máquina do tempo que permitisse a você uma única viagem para qualquer período da sua vida. Você voltaria para algum momento do passado ou iria para algum período específico do seu futuro? Mudaria algo? Justifique s
Mas eu poderia voltar pro presente depois? Se sim, eu gostaria de ir dar uma espiadinha no meu futuro, tipo lá pelos meus 35 ou 40 anos. Quanto ao passado, existem vários momentos ao longo da vida da gente que são muito importantes no sentido de desenhar os nossos caminhos... a escolha da carreira, a mudança de escola, de cidade, um emprego ou outro... Então eu percebo que muitas das minhas escolhas, se tivessem sido diferentes teriam mudado totalmente a minha vida, e eu, sinceramente, não sei se iria querer uma vida totalmente diferente da que tenho hoje. Considerando também o fato de que pequenas mudanças podem gerar grandes consequências, a teoria do caos. Por isso, acho que também poderia dar uma espiadinha no passado, na minha infância mais especificamente, mas não mudaria nada, a princípio...
Qual é a sua citação de filme favorita?
Olha, eu poderia escrever páginas e páginas de citações, até porque amo cinema, mas aqui vão algumas que me marcaram muito de uma forma ou de outra...
"Os anuncios nos fazem comprar carros e roupas, trabalhar em empregos que odiamos para comprar as porcarias que nao precisamos. Somos uma geração sem peso na história, cara. Sem propósito ou lugar. Nós não temos uma Grande Guerra. Nem uma Grande Depressão. Nossa Grande Guerra é a guerra espiritual... nossa Grande Depressão é nossas vidas. Todos nós fomos criados vendo televisão para acreditar que um dia seríamos milionários, e deuses do cinema, e estrelas do rock. Mas nós não somos. Aos poucos vamos tomando consciência disso. E estamos muito, muito revoltados." (Clube da luta, 1999)
"Escolha uma vida. Escolha um emprego.Escolha uma carreira, uma família. Escolha uma televisão grande, máquina de lavar, carros, CD player, abridor de lata elétrico.Escolha saúde, colesterol baixo, seguro dentário. Escolha prestações fixas para pagar. Escolha uma casa. Ter amigos. Escolha roupas e acessórios. Escolha um terno do melhor tecido. Se masturbar domingo de manhã pensando na vida. Sentar no sofá e ficar vendo televisão. Comer um monte de porcarias. Escolha uma família e se envergonhar dos filhos egoístas, que pôs no mundo para substituí-lo. Escolha um futuro. Escolha uma vida. Por que eu iria querer isto?" (Trainspotting, 1996)
"Envergonhado, o Diabo parou e sentiu que a bondade era terrível." (The Crow, 1994)
E não podia deixar de citar o Último Discurso do Carlitos....
"- Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos.
Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!
Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, ms dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!
- Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!." (O grande ditador, 1940)
Que música você está escutando hoje?
Quase que obsessivamente - She brings me love do Bad Company...
mas também guardei espaço pra Kansas e Asia...
Você acredita em sincronicidade? Ou acha que tudo no mundo é por acaso?
Eu acredito sim. Ou, melhor, prefiro acreditar. Não gosto da idéia de que as coisas não estão em sintonia. Sem contar que a verdadeira beleza da vida, pra mim, são esses pequenos detalhes que ligam nós e nossas experiências numa teia infinita de possibilidades...
é, parece utopia, eu sei... mas, como disse, prefiro acreditar...
O catecismo me ensinou, na infância, a fazer o bem por interesse e não fazer o mal por medo. Deus me oferecia castigos e recompensas, me ameaçava com o inferno e me prometia o céu; e eu temia e acreditava.
Passaram-se os anos. Eu já não temo nem creio. E, em todo caso – penso – se mereço ser assado cozido no caldeirão do inferno, condenado ao fogo lento e eterno, que assim seja. Assim me salvarei do purgatório, que está cheio de horríveis turistas da classe média; e no final das contas, se fará justiça.
Sinceramente: merecer, mereço. Nunca matei ninguém, é verdade, mas por falta de coragem ou de tempo, e não por falta de querer. Não vou à missa aos domingos, nem nos dias de guarda. Cobicei quase todas as mulheres de meus próximos, exceto as feias, e assim violei, pelo menos em intenção, a propriedade privada que Deus pessoalmente sacramentou nas tábuas de Moisés: Não cobiçarás a mulher de teu próximo nem seu touro, nem seu asno... E como se fosse pouco, com premeditação e deslealdade cometi o ato do amor sem o nobre propósito de reproduzir a mão-de-obra. Sei muito bem que o pecado carnal não é bem visto no céu; mas desconfio que Deus condena o que ignora.
