sexta-feira, 29 de julho de 2011

Que maçada!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, à vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o Diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havermos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Álvaro de Campos

...

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Um oco cheio de tudo...

Quando eu sair das sombras,
minha face a refletir com toda força a luz do ser que não és...
tuas pupilas estarão dilatas,
tua mente acelerada e teu espírito muito longe da terra firme,
Enfrentarás uma vertiginosa viagem às profundezas do mistério
sentirás com dor a imensidão do nada
e com despeito a imensidão do tudo,
saberás da profecia que não existe,
do vazio em que flutuas,
chorarás de desconsolo...
chorarás de desespero...
até quando de teus olhos emergirem lágrimas secas...
lágrimas mudas...
estarás pronto, então,  para aceitar...
- e até mesmo ver a beleza,
da caótica inexistência de qualquer sentido...

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Buscando llegar hasta el sol - A.N.I.M.A.L.

A.N.I.M.A.L. (Acosados Nuestros Indios Murieron Al Luchar) é uma banda argentina que teve relativo sucesso nos anos 90, mas que já não está mais na ativa desde 2006. Gostei muito da banda, de algumas músicas em especial, que são realmente lindas, segue uma delas: 

Siento caer la lluvia en mi, mojando las heridas
Que dejo marcado el tiempo hoy,

Parece que el dolor se fuera con el agua ,
Purificando mi soledad,

Hoy siento al respirar que el aire esta mas frio,
Y mis ojos vuelven a brillar,

El destino es el rey de mi nuevo camino,
Y correre a buscar...

El fuego, de mi pasion,
Renace y siento que!!
Mi cuerpo se enciende otra vez,
Buscando llegar hasta el sol
La llama de nuestra ilusion,
No dejare que se apague jamas...

Otra vez estoy aqui ,
Esclavo de mi propio azar,

No quiero pensar en morir asi,
Sin antes luchar y encontrar ,

La luz del sol que quema y fortalecera
Mi alma cansada para mantenerla en pie,

Quiero ser mi juez en este cruel destino,
Y nuevamente ver.

El fuego de mi pasion
Renace y siento que ,
Mi cuerpo se enciende otra vez,
Buscando llegar hasta el sol
La llama de nuestra ilusion,
No dejare que se apague jamas...

quarta-feira, 22 de junho de 2011

.pretensa consciência social.

A mim parece que todos esse protestos verbais da população em geral, do tipo comentários no twitter, mobilizações virtuais, frases de indignado desabafo no almoço de domingo, que todas estas manifestações, por natureza fugazes e efêmeras - pois moram no interesse individual e não no coletivo - são pequenos escapes, pelos quais de maneira vagarosa e insignificante escoa uma energia que em forma de avalanche repentina poderia verdadeiramente provocar mudanças profundas.
Esses protestos são previstos pelo sistema, e até incentivados. A falta de liberdade de expressão tem relação direta com os movimentos genuinamente revoltados e ansiosos por transformações...
Hoje cada um se contenta em poder criticar, em poder dar a sua magnânima opinião sobre tudo, exercendo assim uma liberdade conquistada com muito suor por gerações que já se esvanecem.
Não há mais explosões ideológicas, há pequenos inchaços aqui e acolá que logo são suprimidos, escondidos, esquecidos, pela forma mais estúpida e vergonhosa, - muito mais do que a opressão autoritária dos militares de outrora - a distração, o desvio de atenção.
E assim vamos seguindo, reclamando do aumento salarial dos políticos, da ciclovia que não foi feita, do escândalo do Detran, lamentando o terremoto ali, o bombardeio acolá. Muito mais preocupados em emitir opinião, em mostrar uma preocupação, que de fato não existe, não é sincera. Em última análise, uma preocupação com a própria alma.

E reconheço que talvez em nada se diferencie essa minha declaração daquelas que são o objeto dela...

[Por mim mesma, K.]

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Meu vício agora...

Baita música de uma grande banda nacional...

Meu Vício Agora
Kid Abelha
Composição : George Israel/Paula Toller

Não vou mais falar de amor
De dor, de coração, de ilusão
Não vou mais falar de sol
Do mar, da rua, da lua ou da solidão

Meu vício agora é a madrugada
Um anjo, um tigre e um gavião
Que desenho acordada
Contra o fundo azul da televisão

Meu vício agora...
É o passar do tempo
Meu vício agora...
Movimento, é o vento, é voar...é voar

Não vou mais verter
Lágrimas baratas sem nenhum porque
Não vou mais vender
Melôs manjadas de Karaokê

E mesmo assim fica interessante
Não ser o avesso do que eu era antes
De agora em diante ficarei assim...
Desedificante

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Estudo de Planejamento Político 23

Lendo um material para a faculdade, deparei-me com tal absurdo que sucede. É um trecho do Estudo de Planejamento Político 23 [EPP 23], elaborado em 1948, pelo Departamento de Estado dos EUA, redigido pelo então encarregado George Kennan. Na verdade é absurdo, mas nem tanto. Nem tanto, porque a gente já sabe bem como funcionam as coisas por trás dos panos, e ficar chocado não é exatamente a reação.
Esse documento foi concebido como ultra secreto, mais como um diálogo entre os estrategistas americanos do pós-guerra, que objetivavam claramente a hegemonia e monopólio da economia mundial. Essa história dos EUA dominar o mundo parece meio clichê já, mas é interessante perceber como eles realmente estavam articulados no sentido de elaboração de metas e estratégias de dominação, no sentido de ações concretas, para que a gente saia um pouco daquele plano de idéias vagas de conspiração.

Segue um trecho:

Precisamos parar de falar de vagos e irreais objetivos, tais como direitos humanos, elevação do padrão de vida e democratização. Não está longe o dia em que teremos de lidar com conceitos de poder direto. Então, quanto menos impedidos formos por slogans idealistas, melhor. 

"Seguindo essas mesmas linhas, numa reunião de embaixadores americanos na América Latina, em 1950, Kennan observou que a maior preocupação da política externa norte-americana devia ser 'a proteção das nossas (isto é, da América Latina) matérias-primas. Devemos combater a perigosa heresia que, segundo informava a Inteligência americana, estava se espalhando pela América Latina: “A idéia de que o governo tem responsabilidade direta pelo bem do povo'. Os estrategistas americanos chamam esta idéia de comunismo. [...] se elas apóiam tal heresia, elas são comunistas."




Referência:

CHOMSKY, Noam. O que o Tio Sam realmente quer. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999. 

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Reflexões pertinentes...

As crises não constituem anomalias do capitalismo, mas são uma das suas características mais fundamentais.

IHU On-Line - Se Marx previu a natureza da economia mundial no início do século XXI, com base na análise da “sociedade burguesa”, 150 anos antes, que espécie de previsões podemos fazer para nossa economia a partir da sociedade que temos hoje, baseada em valores consumistas e na autonomia?

Claus Magno Germer - Marx foi um cientista, não um profeta. Elaborou uma representação teórica do capitalismo. Se a teoria de um fenômeno o representa adequadamente, ela permite antecipar a ocorrência das principais características do desenvolvimento do fenômeno. A teoria de Marx sobre o capitalismo é uma teoria deste tipo, motivo pelo qual lhe permitiu não só explicar a natureza do capitalismo e do seu funcionamento, como ainda antecipar características que só se tornaram visíveis mais tarde. Além do seu pioneirismo na admissão e explicação teórica das crises, Marx explicou e antecipou o processo geral de centralização do capital que está na base da fase monopolista do capitalismo, inaugurada no final do século XIX; explicou a tendência, amplamente comprovada, de queda cíclica da taxa média de lucro; antecipou e fundamentou teoricamente a existência permanente do desemprego no capitalismo; antecipou o processo de proletarização crescente da população, que pode ser ilustrado pelo crescimento contínuo da proporção do proletariado industrial na população, que passou de apenas cerca de 5% da população mundial no início do século XX para mais de 30% no início do século XXI; antecipou o processo de aumento da polarização entre uma minoria de ricos e uma maioria de pobres, que é ilustrada cotidianamente nos meios de comunicação pelas estatísticas da pobreza e da miséria em escala continental, abarcando pelo menos dois terços da população mundial atual. Estes dados ilustram a antecipação mais importante que decorre da teoria de Marx: de que a intensificação progressiva, embora cíclica, da contradição entre a socialização crescente do trabalho e da produção, isto é, da riqueza, e a privatização crescente desta riqueza e sua concentração nas mãos de uma minoria cada vez mais diminuta, representa o crescimento das potências transformadoras inerentes ao capitalismo e conducentes ao seu fim. Esta contradição se resolverá, por imposição das circunstâncias, através da abolição da propriedade privada dos meios de produção e a instituição da propriedade social, e da conseqüente abolição do motivo egoísta do lucro como base da regulação do trabalho e da produção social e sua substituição pelo critério do atendimento das necessidades da coletividade, em uma palavra, através do socialismo.
Portanto, embora não se possa fazer previsões precisas, dada a complexidade do processo histórico, o que se pode dizer com base na teoria de Marx é que o capitalismo continuará apresentando uma seqüência de expansões e crises, ao longo das quais as contradições enumeradas acima se acentuarão, também de modo cíclico, ampliando a instabilidade global do sistema.

IHU On-Line - Qual a importância do Estado e da regulação dos mercados para recuperação da ordem financeira internacional?
Claus Magno Germer - O marxismo não é ingênuo em relação à natureza e funções do Estado. O Estado e o mercado são, juntamente com a economia, componentes do sistema integrado que é a sociedade capitalista. O Estado é um órgão do capital, isto é, de representação dos interesses da classe capitalista. Conseqüentemente, os instrumentos de regulação que utiliza destinam-se a preservar os interesses e o domínio desta classe e do processo de acumulação de capital. Nas crises, a ação do Estado consiste em socializar os custos, isto é, “sanear” a contabilidade de bancos e empresas mais atingidos, lançando o passivo sobre a sociedade, especialmente sobre os trabalhadores e pobres em geral. É o que está ocorrendo atualmente: os dois ou três trilhões de dólares das operações de salvamento articuladas até este momento pelos governos dos países capitalistas centrais destinam-se a salvar instituições financeiras, mas nada ou muito pouco se diz sobre o destino dos devedores não-capitalistas e dos trabalhadores lançados no desemprego, ou sobre a origem destes recursos.



Referência: Entrevista do economista Claus Germer à Revista on line do IHU, em 2008.
Leia a entrevista na íntegra em Revista IHU on line

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A síndrome dos 20 e tantos

Então... recebi este texto via e-mail. Me identifiquei com muitas coisas, quase todas, exceto que hoje já estou casada e com a certeza aquela que o texto menciona - ainda é novidade, então deixa eu me aparecer... rs rs.
Também vem ao encontro de uma anterior postagem minha [Crise dos 25: http://t.co/MyHXTaN]. Enfim, o texto contém muitas verdades.


A chamam de ‘crise do quarto de vida’.
Você começa a se dar conta de que seu círculo de amigos é menor do que há alguns anos.
Se dá conta de que é cada vez mais difícil vê-los e organizar horários por diferentes questões: trabalho, estudo, namorada(o) etc..
E cada vez desfruta mais dessa cervejinha que serve como desculpa para conversar um pouco.
As multidões já não são ‘tão divertidas’...
E as vezes até lhe incomodam.
E você estranha o bem-bom da escola, dos grupos, de socializar com as mesmas pessoas de forma constante.
Mas começa a se dar conta de que enquanto alguns eram verdadeiros amigos, outros não eram tão especiais depois de tudo.
Você começa a perceber que algumas pessoas são egoístas e que, talvez, esses amigos que você acreditava serem próximos não são exatamente as melhores pessoas que conheceu e que o pessoal com quem perdeu contato são os amigos mais importantes para você.
Ri com mais vontade, mas chora com menos lágrimas e mais dor.
Partem seu coração e você se pergunta como essa pessoa que amou tanto pôde lhe fazer tanto mal.
Ou, talvez, a noite você se lembre e se pergunte por que não pode conhecer alguém o suficiente interessante para querer conhecê-lo melhor.
Parece que todos que você conhece já estão namorando há anos e alguns começam a se casar.
Talvez você também, realmente, ame alguém, mas, simplesmente, não tem certeza se está preparado(a) para se comprometer pelo resto da vida.
Os rolês e encontros de uma noite começam a parecer baratos e ficar bêbada(o) e agir como um(a) idiota começa a parecer, realmente, estúpido.
Sair três vezes por final de semana lhe deixa esgotado(a) e significa muito dinheiro para seu pequeno salário.
Olha para o seu trabalho e, talvez, nao esteja nem perto do que pensava que estaria fazendo. Ou, talvez, esteja procurando algum trabalho e pensa que tem que começar de baixo e isso lhe dá um pouco de medo.
Dia a dia, você trata de começar a se entender, sobre o que quer e o que não quer.
Suas opiniões se tornam mais fortes.
Vê o que os outros estão fazendo e se encontra julgando um pouco mais do que o normal, porque, de repente, você tem certos laços em sua vida e adiciona coisas a sua lista do que é aceitável e do que não é.
Às vezes, você se sente genial e invencível, outras… Apenas com medo e confuso(a).
De repente, você trata de se obstinar ao passado, mas se dá conta de que o passado se distancia mais e que não há outra opção a não ser continuar avançando.
Você se preocupa com o futuro, empréstimos, dinheiro… E com construir uma vida para você.
E enquanto ganhar a carreira seria grandioso, você não queria estar competindo nela.
O que, talvez, você não se dê conta, é que todos que estamos lendo esse textos nos identificamos com ele. Todos nós que temos ‘vinte e tantos’ e gostaríamos de voltar aos 15-16 algumas vezes.
Parece ser um lugar instável, um caminho de passagem, uma bagunça na cabeça…
Mas TODOS dizem que é a melhor época de nossas vidas e não temos que deixar de
aproveitá-la por causa dos nossos medos…
Dizem que esses tempos são o cimento do nosso futuro.
Parece que foi ontem que tínhamos 16…
Então, amanha teremos 30?!?! Assim tão rápido?!?!

 .
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[Autor desconhecido]

terça-feira, 24 de maio de 2011

Anos 80

           Esses dias, em algum lugar na internet, li algo do tipo ‘é, realmente, os anos 80 é a idade das trevas da música’. Bah! Minha primeira reação foi de revolta e indignação. Depois refleti um pouco, analisei, e percebi quão ignorante era o comentário. Primeiro, por fazer referência à idéia - que hoje pra qualquer pessoa esclarecida é no mínimo ingênua, pra não dizer superficial - de que a Idade das Trevas [Idade Média] realmente tenha sido um momento estéril culturalmente. Pensamento que durante muito tempo foi alimentado por uma atitude preconceituosa que nos dias de hoje é motivo de vergonha para os estudiosos ressentidos de outrora.
            Depois pensei: poxa vida, a pessoa prefere gastar tempo, energia e espaço, para depreciar uma arte admirada por outras pessoas, e que tem seu valor patente e inconteste. Por que não gastou esse mesmo tempo, essa mesma energia e espaço para falar bem de algo que gosta. Ou então que vá falar mal de coisa ruim mesmo, do tipo dessas bandas coloridas de hoje em dia, que nem de longe é uma questão de gosto, mas de mercado. Quem gosta e compreende mesmo o que representa a música, entende que o respeito é algo que independe de tu gostar ou não. Eu não sou muito do rock clássico, por exemplo. Mas respeito pra caramba, sei da importância, e, sobretudo, aprecio o valor artístico desses caras. O que muitos metidos a críticos de música por aí não entendem é que conhecimento musical é uma coisa e sensibilidade musical é outra bem diferente.
            Essas pessoas me parecem todas papagaios de pirata, me dão a impressão clara de sequer conhecerem realmente o som dos anos 80. São ridículas a prepotência e a arrogância de simplesmente ignorar, diminuir ou desvalorizar a arte de pessoas como Martin L. Gore, Dave Gahan, Vince Clarke, Robert Smith, Morrisey, Roland Orzabal, pra mencionar os mais conhecidos. Estão muito menos empenhadas em descobrir coisas belas, do que em perpetuar preconceitos burros e infantis. Um conselho a estas pessoas: Cresça e decida por si mesmo sobre o que gosta ou não, e, mais importante, respeite o que merece ser respeitado. Do contrário, você não passa de um fã de merda, fundamentalista, preconceituoso e burro, que acha que entende alguma coisa de música!
           
Concluo com uma música de uma das minhas bandas preferidas - de todos os tempos e de TODAS as semanas, hehe -, Depeche Mode, a qual devoto admiração que só cresce. A música é interpretada pelo Martin Gore, e é absolutamente linda.

Macro
Depeche Mode


Overflowing senses
Sentidos abundantes
Heightened awareness
Atenção aumentada
I hear my blood flow
Eu ouço o meu sangue fluir
I feel its caress
Eu sinto o carinho
Whispering cosmos
Cosmos sussurrante
Talking right to me
Falando comigo
Unlimited, endless
Ilimitado, infinito
God breathing through me
Deus respirando através de mim


See the microcosm
Veja o microcosmo
In macrovision
Pela macrovisão
Our bodies moving
Nossos corpos se movendo
With pure precision
Com pura precisão
One universal celebration
Uma celebração universal
One evolution, one creation
Uma evolução, uma criação


Thundering rhythm
Ritmo fulminante
Pounding within me
Triturando por dentro de mim
Driving me onwards
Dirigindo-me para frente
Forcing me to see
Forçando-me a ver
Clear and enlightening
Claro e esclarecedor
Right there before me
Bem à minha frente
Brilliantly shining
Reluzindo brilhantemente
Intricate beauty
Beleza intricada

Letra e tradução: http://www.vagalume.com.br/








quinta-feira, 5 de maio de 2011

CREOLINA

A creolina espanta o indesejado bicho homem,
desinfeta e afeta o outro bicho homem,
que como bicho já não se vê.
Pingos negros pelo chão, cantos pútridos a cada esquina.
As ruas encardidas de uma sujeira incivilzada.
O público é de ninguém, e como de ninguém é tratado.

E a solidão mora na multidão apressada, descompassada.
Multidão que não enxerga nada, mas que acredita em tudo.
E para muitos, a vida passa encarnada num eterno desfile de modas...
E, sendo assim, desfilam estes nas calçadas, mijadas e imundas,
num espetáculo grotesco e pedante.

Anda rápido se dando importância,
tira fotos, sorri, fala alto.
Encena a vida - todos nós, aliás.
À noite, se conecta e fica a carregar fotos,
numa ânsia de mostrar à todos quão feliz é sua vida.
Mais que convencer à todos, quer é convencer a si mesmo
de uma felicidade artificialmente colorida.

Alguns, porém, deveras sentem aquilo que encenam,
deveras desejam aquilo que buscam.
Poucos, é verdade, cada vez menos... mas, ainda assim, alguns...


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sexta-feira, 29 de abril de 2011

If not now, when? - 2011

Consegui este álbum através de um amigo. Ele ainda não foi lançado oficialmente, o que acontecerá apenas em julho deste ano. Estão lançando os singles por enquanto. Ontem, lançaram o 'Adolescents'.  Está difícil de baixar, pois a fiscalização tá ferrenha e os links duram muito pouco. 
Mas enfim, desde ontem que não consigo parar de ouvir este disco. Em certo sentido é um disco bastante diferente do restante do trabalho da banda. Pra quem ouviu o Light Grenades (2006) e, como eu, também achou um disco ostensivamente produzido, vai perceber que o If not now, when? retoma uma originalidade mais sensível da banda, mostrando um trabalho genuíno. Chamam a atenção elementos que deixam perceber influências claramente oitentistas, entre outras, claro. Brandon Boyd, também surpreende com seu vocal, que sem dúvida encontra as expressões de inovação e de perfeição extrema neste álbum. Então, pra quem tiver afim de ouvir música boa e NOVA - porque tem uma galera imensa por aí que não sabe admirar a arte do seu tempo e professa aos quatro ventos que só o passado é que era bom - tá aí a dica mais do que bacana. Aproveito para agradecer, mais uma vez, ao meu amigão Ed, que me passou o disco!

Link do site oficial da banda:
http://www.enjoyincubus.com/us/home

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terça-feira, 26 de abril de 2011

Para sempre...

Chovia dentro de seu coração. Uma chuva que caia em sentido inverso, contra a gravidade, e desaguava em seus tristes olhos. Seu corpo estava doente, seu espírito estava doente. Fora condenada. Tinha agora os pensamentos confusos. Lembrava-se de que para muitos sua doença era considerada um dom, sua maldição, uma bênção. Tolos, não haveriam de compreender a infinita beleza da efemeridade e fragilidade humanas. Mas não podia culpá-los, pois só agora também tinha os olhos despertos para ela, através da mágoa do intocável, do impossível, do imutável.
Sentia seu corpo fraco e com fome. Dias já haviam se passado desde que fora transformada e determinara-se a não se alimentar, negando-se a qualquer tentativa de seus “anfitriões”.
Olhava agora, de maneira quase inanimada, para o tapete brilhante no chão. Talvez pela primeira vez, percebe o lugar onde está. O cômodo da casa que lhe fora destinado é um lindo quarto, bastante confortável e elegante. Porém, não há janela alguma, o que torna o espaço um tanto opressor.
Em todo esse tempo, não comera, não bebera, não se banhara. Limitara-se a ficar estática sobre a cama, numa desgraçada resignação. Também foram poucos seus momentos de descanso, seus pequenos fragmentos de sonos mais pareciam delírios de febre. Encontrava-se ali, pois, uma figura sombria e terrivelmente degradada pelos últimos acontecimentos. Não ousara aceitar o fato. Negara, desesperara-se, mas em nenhum momento até então havia olhado para o futuro com olhos que agora tem, os olhos de um vampiro.


[Por mim mesma, K.]

Civilidade inventada

A boa educação, a gentileza e o respeito ao próximo estão definhando sob os pés da grosseria descabida, do egoísmo mascarado, da alienação velada, de uma manada urbana que em nada se assimila à ordem tão singela, mas inerente, demonstrada por outros animais ‘não racionais’ e ‘não civilizados’.



[Por mim mesma, K.]

terça-feira, 19 de abril de 2011

Eloqüente, mas furado!

Os discursos inflamados, que pregam as revoluções, que clamam por mudanças. Discursos que volta e meia pipocam febrilmente num modismo vazio ao longo da história. Esses discursos muito pouco ou quase nunca saem da boca daqueles que são propriamente o objeto da fala. Talvez por isso, esses discursos nunca encetem ou inspirem mudanças verdadeiras e permanentes. Não são genuínos e obedecem, via de regra, mais a uma tendência sazonal do indivíduo do que a um desejo coletivo de superação. Nunca querem desbestializar os bestializados. É preciso que a besta continue existindo, alimentando os discursos pomposos de uma elite burguesa que nada sabe da vida para além das teorias livrescas. Esses discursos alheios da realidade nunca chegam ao cerne de qualquer questão. São adereços que figuram na prateleira, junto das roupas que encarnam o personagem preocupado, estiloso e, sobretudo, descolado, - bem ao lado daquilo que conhecemos como hipocrisia.



[Por mim mesma, K.]

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Beleza comprada

A profusão absurda, em nossos dias, de centros de beleza, estéticas e afins, fala muito mais do que gostaríamos de admitir sobre as preocupações e prioridades de nosso tempo.







[Por mim mesma, K.]

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Manifesto da solidariedade privada:


A minha solidariedade é finita e condicional. Sem falsos altruísmos, sem hipócritas filantropias, sem  qualquer generosidade egoísta. A minha solidariedade não se submete a insensatezes alheias, nem a qualquer estupidez torpe e medíocre. Também não está para ações bestiais infundadas, ou atitudes pouco ou nada refletidas. Minha humanidade se reserva para os espíritos verdadeiramente humanos, para aqueles que não se curvam aos boçais instintos animais, sejam eles os primitivos primevos ou os neo-primitivos mascarados por uma modernidade decadente. Não, minha solidariedade é minha, e faço dela o que bem quiser, ou não faço nada. Distribuo a quem eu quiser, e considerar merecer, podendo ser nas formas mais variadas, emotivas ou físicas, anônimas ou declaradas. Minha solidariedade é minha e não deve demagogas satisfações à ninguém.


[Por mim mesma, K.]

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Sobre os casais de plástico

Há casais famintos por alcançar datas de aniversário do relacionamento. Usam-nas numa tentativa desesperada de renovar esperanças que já não mais existem, há tempos. Geralmente as expressam por meio de trocas de presentes, desprovidas de qualquer sentido mais profundo. Há ainda aqueles que 'saem' pra fazer 'algo especial' no intuito de sublinhar a ocasião. Saem, comem, mostram-se, exibem-se para os outros num desfile curioso, num arremedo competitivo e velado. Esforçam-se por fazer saber aos outros que estão juntos ainda - e felizes, muito felizes. 'Viu, como deu certo?' ‘Viu? Consegui!’. A passagem numérica do tempo é o único argumento que encontram para explicar uma felicidade obrigatória que, no fim de contas, não está lá. O tempo é o único poder de legitimação desse amor vazio de sentido.
Não estou aqui falando de todos os casais, nem mesmo da maioria talvez, mas tenho visto por aí alguns exemplos claros de pessoas que não têm absolutamente mérito ou sentimento nenhum em manter um relacionamento. Dão-me a impressão de que em qualquer pessoa que se tivessem escorado, ali permaneceriam até o fim de suas vidas, sem muito esforço, vítimas de uma carência desmedida e pobres de auto-estima. Reitero e complemento um velho ditado: antes só do que mal amado, ou do que mal amante.
Dessa insistência teimosa e despropositada, advêm as traições, as insatisfações, as frustrações, e toda essa balela que a gente já está careca de saber, de homem é assim, mulher é assado.  
As pessoas fazem tudo, mas é sobre muito pouco - ou quase nada - do que fazem que se perguntam sobre os verdadeiros sentidos e desejos. Perpetuam hábitos e costumes que nem mesmo refletem a si mesmos, se é que algum dia refletiram...


[Por mim mesma, K.]

terça-feira, 5 de abril de 2011

A morta

[...] 
Não havia lua! Que noite! Sentia medo, um medo horrível, nesses caminhos estreitos entre duas filas de túmulos! Túmulos! Túmulos! Túmulos. Sempre túmulos! À direita, à esquerda, à frente, à minha volta, por toda parte, túmulos! Sentei-me num deles, pois não podia mais caminhar, de tal forma meus joelhos se dobravam. Ouvia meu coração bater! E também ouvia outra coisa! O quê? Um rumor confuso, indefinível! Viria esse ruído do meu cérebro desvairado, da noite impenetrável, ou da terra misteriosa, da terra semeada de cadáveres humanos? Olhei à minha volta!
Quanto tempo fiquei ali? Não sei. Estava paralisado de terror, alucinado de pavor, prestes a gritar, prestes a morrer.
E, de súbito, tive a impressão de que a laje de mármore onde estava sentado se movia. Realmente, ela se movia, como se a estivessem levantando. Com um salto, precipitei-me para o túmulo vizinho e vi, sim, vi erguer-se verticalmente a laje que acabara de deixar; e o morto apareceu, um esqueleto nu que empurrava a lápide com as costas encurvadas. Eu via, via muito bem, embora a escuridão fosse profunda. Pude ler sobre a cruz:
"Aqui jaz Jacques Olivant, morto aos cinqüenta e um anos de idade. Amava os seus, foi honesto e bom, e morreu na paz do Senhor."
O morto também lia o que estava escrito no seu túmulo. Depois, apanhou uma pedra no chão, uma pedrinha pontiaguda, e começou a raspar cuidadosamente o que lá estava. Apagou tudo, lentamente, contemplando com seus olhos vazios o lugar onde ainda há pouco existiam letras gravadas; e, com a ponta do osso que fora seu indicador, escreveu com letras luminosas, como essas linhas que traçamos com a ponta de um fósforo:
"Aqui jaz Jacques Olivant, morto aos cinqüenta e um anos de idade. Apressou com maus tratos a morte do pai de quem desejava herdar, torturou a mulher, atormentou os filhos, enganou os vizinhos, roubou sempre que pode e morreu miseravelmente."
Quando acabou de escrever, o morto contemplou sua obra, imóvel. E, voltando-me, notei que todos os túmulos estavam abertos, que todos os cadáveres os tinham abandonado, que todos tinham apagado as mentiras inscritas pelos parentes na pedra funerária, para aí restabelecerem a verdade.
E eu via que todos tinham sido carrascos dos parentes, vingativos, desonestos, hipócritas, mentirosos, pérfidos,caluniadores, invejosos, que tinham roubado, enganado, cometido todos os atos vergonhosos, abomináveis, esses bons pais, essas esposas fiéis, esses filhos devotados, essas moças castas, esses comerciantes probos, esses homens e mulheres ditos irrepreensíveis.
Escreviam todos ao mesmo tempo, no limiar da sua morada eterna, a cruel, terrível e santa verdade que todo mundo ignora ou finge ignorar nesta Terra. 
[...]

Trecho de "A morta" de Guy de Maupassant.

...

terça-feira, 29 de março de 2011

Crise dos 25...

Em meados dos 20 chegam as crises, as verdadeiras, mais profundas e mais estruturais crises. Adolescência... pois é... período complicado também, mas cheio de convicção, coisa que se arrefece com o tempo. Lá pelos 25, finalmente percebemos, in ou conscientemente que não vamos mudar o mundo, que não vamos ser estrelas do rock, que nossas vidas não são assistidas pelo resto do mundo, como num reality show. Que estamos no micro e não no macro. Aquela vaga impressão de protagonizar qualquer coisa vai desvanecendo.
Aprendemos a contemplar a simplicidade da vida, a simplicidade da flor. Nesse tempo já juntamos tanta informação, na ansiedade típica da idade, que já nem sabemos mais em que acreditar, nem o que proclamar como filosofia de vida.
Somos então, astros desconhecidos, celebridades anônimas, em luta por um significado, por uma atribuição de sentido, por uma explicação para tudo isso aqui...
E a motivação da vida se torna uma insidiosa expectativa por uma revelação súbita, que nos dê respostas, que nos dê sentidos...

...

quarta-feira, 23 de março de 2011

Amor com torradas...

- Mas vocês não vão viver só de amor né?!

- Não, claro que não. Planejamos comer torradas também.




Ps.: E assim os desapaixonados vêem os apaixonados. E vice-versa, e versa-vice.

terça-feira, 15 de março de 2011

Estranhos heróis temos nós...

Vasco então disse que achava essas histórias de farroupilhismos e bravatas e gauchismos muito engraçadas e ridículas. Respondi que não havia nada de engraçado nem ridículo e que os meninos precisavam conhecer a História da sua terra. Eu devia ter ficado calada, porque Vasco se pôs sério de repente e começou a falar, a falar, a falar, despejando um verdadeiro discurso em cima de mim. Demos mais de dez voltas ao redor da praça e o Gato do Mato, sempre falando. Disse que era muito malfeito ensinar às crianças que guerras e revoluções são coisas bonitas, que os heróis são só os generais e os soldados que matam. Disse que enquanto nós professoras ensinarmos na escola que foram os brasileiros que ganharam a batalha do Passo do Rosário, que o Brasil é mais corajoso, mais belo e mais adiantado que a Argentina ou do que o Chile – não poderá haver paz. Disse mais que as crianças vão se criando acostumadas a ouvir elogios à guerra e aos guerreiros e acabam achando que matar é a coisa mais natural e necessária deste mundo.
Quando ele parou um instante para tomar fôlego, eu aproveitei a pausa e disse que os meninos deviam aprender a amar a Pátria. Quando falei em Pátria, Vasco ficou aceso de novo e disse que essa idéia de pátria que nós temos é uma bobagem, que todos os homens são irmãos, são iguais e que por falarem línguas diferentes, terem olhos e cabelos de cor diversa não quer dizer que devam andar se estripando em guerras. [...] Disse que as guerras que nós pensamos que rebentam por causa do famoso patriotismo, são geralmente provocadas pelos vendedores de armamentos e por outros grandes negociantes que podem irar partido das bagunças internacionais. p. 202


[VERÍSSIMO, Érico. Clarissa. 38ª edição. São Paulo: Globo, 1995. 240 p.]



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quinta-feira, 10 de março de 2011

Solipsismo

>> Corrente filosófica que determina que exista apenas um Eu que comanda o Mundo, ou seja, o mundo é controlado consciente ou inconscientemente pelo Ser. Devido a isso, a única certeza de existência é o pensamento, instância psíquica que controla a vontade. O mundo ao redor é apenas um esboço virtual do que o Ser imagina. Como também as pessoas, acreditando que são resultados de uma experiência mental. Além disso, também pode-se considerar o corpo do próprio Ser como algo virtual, como diz a corrente solipsista, tudo é uma reprodução, uma vez que não se pode ter confiança nem nos sentidos que são experimentados, e apenas nos pensamentos, como fonte de certeza de existência. O Solipsismo é basicamente a idéia de que o Ser controla o mundo. É uma crença filosófica que além de nós e nossas experiências, nada existe. É a ideia de que a única realidade cognoscível é o Eu.

Fonte: Wikipedia.

sexta-feira, 4 de março de 2011

O labirinto invisível.

Não sei se tenho o talento, mas a alma mortificada do poeta tenho.
Ainda não sei de que me vale essa alma em farrapos, torturada pela frieza bagunçada do mundo,
Mas farejo a saída. Um dia saio, ou morro tentando.
Um dia, talvez, sinta que saí, mesmo não saindo.
Talvez sinta simplesmente que passei sob o arco da porta e respire a plenos pulmões o ar puro da rua, da liberdade.
O que fica, sempre, é o sentir.
A vida é somada em sentires.
A liberdade está cá dentro e não lá fora.
As paredes do imenso labirinto são nossos medos mais sombrios.
Boa pena a vida ser mestra em mostrar que não há verdades absolutas,
Há, e aos montes, verdades transitórias... provisórias.
Aquelas com mera funcionalidade ornamental.
Essa, por talvez, seja a verdade mais sigilosa e óbvia da existência do homem.




[Por mim mesma, K.]

O sobrevivente

O sobrevivente
Carlos Drummond de Andrade


Impossível compor um poema a essa altura da
evolução da humanidade.
Impossível escrever um poema - uma linha que
seja - de verdadeira poesia.

O último trovador morreu em 1914.
Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.
Há máquinas terrivelmente complicadas para as
necessidades mais simples.

Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor se faz pelo sem-fio.
Não precisa estômago para digestão.

Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta
muito para atingirmos um nível razoável de
cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto.

Os homens não melhoram
e matam-se como percevejos.

Os percevejos heróicos renascem.
Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.
(Desconfio que escrevi um poema.)
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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

[A] gnose

     Quando cheguei à maturidade intelectual e comecei a perguntar-me se era ateu, teísta ou panteísta, materialista ou idealista, cristão ou livre-pensador, percebi que quanto mais aprendia e refletia menos fácil era a resposta, até que por fim cheguei à conclusão de que nada tinha a ver com nenhuma dessas definições, com exceção da última. A única coisa em que todas essas excelentes pessoas estavam de acordo era a única coisa em que eu discordava delas. Estavam bastante seguras de que tinham atingido uma certa ‘gnose’ – haviam, com maior ou menor sucesso, resolvido o problema da existência, enquanto eu estava bastante seguro do contrário e possuía uma convicção razoavelmente forte de que o problema era insolúvel. [...] Portanto, meditei e inventei o que me parece ser um rótulo adequado: ‘agnóstico’. Pensei nele como uma antítese sugestiva dos gnósticos da história da Igreja, que professavam conhecer coisas em que eu era ignorante.

[Henry Huxley – biólogo; 'inventor' do termo agnóstico em meados do século XIX; avô de Aldous Huxley, escritor]


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Um poema bonito...

Compartilho um belo poema que fala muito sobre meu espírito, e, faço fé, sobre os de muitos outros...


ELEVAÇÃO
Charles Baudelaire

Por sobre os pantanais, os vales orvalhados,
Por sobre o éter e o mar, por sobre o bosque e o monte,
E muito além dos confins dos tetos estrelados,

Meu espírito, vais, com toda a agilidade,
Como um bom nadador deleitado na onda,
Sulcas alegremente a imensidão redonda,
Levado por indizível voluptuosidade.

Bem longe deves voar destes miasmas tão baços;
Vai te purificar por um ar superior,
E bebe, como um puro e divino licor,
O claro fogo que enche os límpidos espaços.

E por trás do pesar e dos tédios terrenos
Que gravam de seu peso a existência dolorosa,
Feliz este que pode de asa vigorosa
Lançar-se para os céus lúcidos e serenos!

Aquele cujo pensar, como a andorinha veloz
Rumo ao céu da manhã em vôo ascencional,
Que plana sobre a vida a entender afinal
A linguagem da flor e da matéria sem voz.

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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Enter

Paradoxo é logar pra dizer que vai se afastar da internet. Toda a satisfação que negamos ferrenhamente durante anos de rebeldia aos nossos pais e familiares, hoje damos à internet. Muitas vezes, ela (a internet) sabe mais sobre nós mesmos, ou sobre quem pretendemos ser, do que nossa família. Perdemos tempo em auto-definições analíticas para poder elaborar um perfil na rede, mas não nos dispomos a sentar e ter uma conversa sincera com a avó, com o pai, com o irmão. Despendemos longas horas em frenesi virtual, querendo dizer tudo a todos, e muitas vezes mal conhecemos pessoas que convivem ou vivem conosco.


[Por mim mesma, K.]

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

♥

- Eu preciso saber se é realmente possível que duas pessoas fiquem juntas para sempre, apaixonadas.

- O melhor que se pode fazer é encontrar alguém que a ame pelo que você é. De bom humor, de mau humor, bonita, feia, o que for. A pessoa certa continuará vendo raios de sol saindo da sua bunda. Esse é o tipo de pessoa com a qual vale a pena ficar.

[Filme Juno, 2007]

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Fanatismo bestial futebolístico

           Sei que esse texto vai doer em muita gente. Paciência. Os incomodados que se incomodem. Eles têm o direito de gostar de futebol, assim como eu tenho o direito de expressar o que penso. 
          Mas o mais [in]crível de toda a imbecilidade futebolística ainda não é os jogadores ganharem milhões verdadeiramente absurdos – o que em si já é uma total e bizarra desvalorização do trabalho e inteligência humanos. Também não é o fato dos fanáticos idolatrarem não mais do que um uniforme, uma combinação de cores – já que o “amor à camisa” virou literalmente amor à camisa apenas. Técnicos duram o tempo de um campeonato e ou são massacrados pela torcida – no caso da derrota – ou abandonam o time por um salário maior – no caso da vitória. Com os jogadores se passa o mesmo. Querem mesmo é prestígio pessoal e, claro, dinheiro, muito dinheiro, quantias monumentais de dinheiro. Mas não cometamos a injustiça de culpá-los por isso, quem não quer não é mesmo? Tudo se resume a uma pura dinâmica administrativa. Por isso, não critico aqui o esporte futebol, que inclusive acho legal como tantos outros esportes, critico o negócio futebol, mascarado de esporte.
            Enfim, o mais [in]crível e irônico mesmo, na minha opinião, é que a esmagadora maioria de torcedores de futebol sequer pratica o esporte. Mas... pão e circo ao povo! Digo, cerveja e futebol!


[Por mim mesma, K.]
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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Breve receita de “sucesso” no mundo pós-moderno.

Finja felicidade,
Finja tristeza,
Finja interesse,
Finja indiferença.
Finja ser forte, finja ser fraco.
Finja simpatia, finja hostilidade.
Finja saber, finja ter, finja ser.
Finja ignorância.
Pareça cruel, pareça bonzinho.
E o mais importante: nunca deixe sua alma
escapar através de seus olhos,
ela pode acabar com seus planos,
e certamente o fará.
Denunciará sua real fragilidade humana,
e buscará a sinceridade das coisas.

[Por mim mesma, K.]
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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Um amor urbano

É todo dia um novo começo,
um recomeço de tudo de novo,
de tudo de velho.
A música no ouvido, no coração.
O pulsar pulsante e estático.
O movimento imóvel
e o farfalhar do aço.
A ansiedade da partida,
a ansiedade da chegada.
A estada que se faz breve, breve demais.
O repousar noturno e os sonhos intranqüilos.
O sono que é pouco.
É todo dia um amontoado de sucedidos,
aos quais não nego sua devida importância,
os reconheço e os desejo.
Mas como podem esses tantos sucedidos
competir com a ternura do teu olhar?
O tudo parece nada.
Tu és o meu ninho, meu verdadeiro repouso,
e a simplicidade do nosso silêncio me é tudo.
E é como se esses tantos sucedidos
fossem uma contagem regressiva para meu retorno à ti.
E então, minha vida passa do sépia ao pleno colorido do amor.


[Por mim mesma, K.]

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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O processo da revolução

     Buenas. Eu não quero me perder aqui em debates teóricos nem nada do tipo. Meu intuito é trazer ao olho algo que está aí pra ser visto, mas que nem sempre percebemos de maneira sensível. A idéia me veio a partir do último filme que vi, "Danton: O processo da revolução". Também havia estudado o período no semestre retrasado, aí decidi fazer a conexão entre os dois e compartilhar.
     Todos sabem e citam a Revolução Francesa - 1789. Realmente foi algo de uma dimensão incrível e que mudou para sempre os rumos das relações políticas no mundo todo. Abriu caminho para uma série de transformações, sem dúvida. Contudo, teve sua índole corrompida. Na chamada fase do Terror (1793) - e ao longo de todo o processo, mas mais acentuadamente nessa fase - a revolução vira uma verdadeira tirania, e cabeças rolam por toda a França, nas guilhotinas, que encarnam verdadeiros símbolos de opressão e ameaça. Robespierre, principal líder do período, estava mais para uma Rainha de Copas: - Cortem-lhe a cabeça! O novo sistema deve se manter a qualquer custo! E todos que discordarem são acusados de crime contra a pátria, de atos contra-revolucionários.
     E não longe dali, depois de uma série de desacertos, alterações convenientes e contraditórias no ideário revolucionário e atos que desvirtuaram completamente o espírito da revolução, logo ali, em 1799, a monarquia retorna a França, sob uma forma militar e violenta, na figura de Napoleão Bonaparte. Repito: a monarquia retorna a França. Em 1799.
    O que quero com esse modesto e breve comentário acerca de um assunto tão complexo, é, simplesmente, mostrar que as coisas não são lineares como nos colocam, nem compartimentadas, fragmentadas. O buraco é muito mais embaixo. As mudanças demandam processos infinitamente complexos e longos, e isso é natural. É preciso que olhemos tendo em vista um horizonte mais amplo, e um pensamento mais crítico e inquisitivo.
     A seguir, coloco algumas passagens da primeira versão da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789. Lendo-as, entenderão o que eu quis dizer.


I - Os homens  nascem e permanecem livres e iguais em direitos; as distinções sociais não podem ser fundadas senão sobre a utilidade comum.

II - O objetivo de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem; esses direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão.

III - O princípio de toda a soberania reside essencialmente na razão; nenhum corpo, nenhum indivíduo pode exercer autoridade que dela não emane diretamente.

IV - A liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique a outrem. Assim, o exercício dos direitos naturais do homem não tem limites senão aqueles que asseguram aos outros membros da sociedade o gozo desses mesmos direitos; seus limites não podem ser determinados senão pela lei.

V - A lei não tem o direito de impedir senão as ações nocivas à sociedade. Tudo o que não é negado pela lei não pode ser impedido e ninguém pode ser constrangido a fazer o que ela não ordenar.

VI - A lei é a expressão da vontade geral; todos os cidadãos têm o direito de concorrer, pessoalmente ou por seus representantes, à sua formação; ela deve ser a mesma para todos, seja protegendo, seja punindo. Todos os cidadãos, sendo iguais a seus olhos, são igualmente admissíveis a todas as dignidades, lugares e empregos públicos, segundo sua capacidade e sem outras distinções que as de suas virtudes e de seus talentos.


XI - A livre comunicação dos pensamentos e opiniões é um dos direitos mais preciosos do homem; todo o cidadão pode, pois, falar, escrever e imprimir livremente; salvo a responsabilidade do abuso dessa liberdade nos casos determinados pela lei.

XII - A garantia dos direitos do homem e do cidadão necessita de uma força pública; essa força é então instituída para vantagem de todos e não para a utilidade particular daqueles a quem ela for confiada.


XV - A sociedade tem o direito de pedir contas de sua administração a todos os agentes do poder público.



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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Sua inveja faz minha fama...

     Esse post é para aqueles por aí, que perdem tempo vivendo a vida dos outros. E o pior, nem vivendo literalmente, mas virtualmente, pelo canal da inveja e do despeito. E vejam bem, que seja um conselho, um bom conselho. Eu, particularmente nem me importo que fuçem, visitem, investiguem, persigam, seja lá o que for, meus perfis virtuais. Sempre digo, quem quer privacidade absoluta que não os faça, simples. Os perfis virtuais não são pra quem quer privacidade. Mesmo assim, hoje já existem meios de restringir acesso à algumas informações. 
     Algumas pessoas fazem até uma cena do tipo "cuide da sua vida" e coisas afins, mostrando-se quase que ofendidas. Acho ridículo. Sinceramente e secretamente até sinto uma pontinha de vaidade por despertar interesses alheios. E meu santo é tão forte que foda-se o olho gordo, ele bate e volta. Esses tempos alguém se deu o tamanho trabalho de criar uma conta de e-mail e um perfil no orkut, só para, através do convite de amizade, - repito e enfatizo: através do convite de amizade - poder me desaforar em meia dúzia de palavras baixas. Me senti honrada! E depois, as palavras apesar de serem horríveis, falaram muito mais sobre a pessoa que as escreveu, e de onde eu doía nela, do que de mim. Acho incrível uma pessoa não se dar conta de uma coisa tão tola e inócua - talvez ela tivesse a vã esperança de me destruir através daquilo. Pffffu!
     Mas enfim. Isso não é um texto criticando essas pessoas. Honestamente, quero dar um conselho positivo a essas pessoas, porque meu espírito é nobre e minha modéstia é pouca: Não perca um tempo precioso da sua vida, vivendo a vida dos outros, secando a vida dos outros. Isso não faz bem pra você. Use esse tempo cuidando da sua vida, de verdade, investindo em você mesmo, crescendo como pessoa, se aprimorando, buscando a sua felicidade. Vá ler um livro, vá ver um filme, reflita sobre o próximo presente que você dará a si mesmo. SEJA FELIZ, de forma saudável, e não através de uma constante esperança de ver a INfelicidade alheia.

[Por mim mesma, K.]


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